Por que amamentar?

Amamentar não é somente um ato nutricional…é também emocional, social e cultural. Por isso, o que parece simples, pode não ser…

Vivemos atualmente uma época de pouca interação da maternidade. Antigamente mães, avós, primas, cunhadas, comadres estavam mais próximas…O aprendizado da maternidade se fazia pela convivência, pela observação, pelo apoio da comunidade próxima a que as mulheres pertenciam, compartilhavam viveres. Isto foi-se perdendo à medida que a vida foi ficando mais corrida…, mais urbana, menos comunitária.

Fisiologicamente é o mais “natural”, somos mamíferos, então nossos filhotes “deveriam” mamar…, porém, amamentar antes de  “dever” precisa fazer parte de uma escolha, e saber que com ela vem outras questões como disponibilidade emocional, física e também de tempo…, e esta equação pode não fluir na mesma urgência deste filhote. Mesmo com toda a disponibilidade, podem aparecer questões físicas, das primeiras dificuldades: peito “empedrado”, fissura mamilar, dores, e com elas, a instauração da primeira crise do aleitamento. Estas dificuldades geram grande desafio, ao mesmo tempo uma sensação de grande responsabilidade da mulher nutriz. Se sentir fonte de nutrição de um bebê é impactante, e por vezes até esmagador. E vem aí a questão social… à medida que esta se depara com (aparecem) estes desafios (ela sabe que o aleitamento materno é o melhor para seu bebê), procura ajuda, e infelizmente o que encontra nem sempre são palavras acolhedoras e otimistas. Muitas vezes esta mulher é recebida com críticas, julgamento, diminuição da sua capacidade, e em contrapartida, recebe uma orientação nada empática, que não considera sua história de vida, que a faz sentir-se inadequada e não suficiente ao seu bebê. Mulheres que amamentam precisam de apoio, precisam de ajuda prática, e antes do que digam o que elas devem fazer, precisam se sentir apoiadas, ouvidas, acolhidas. E isto começa muito antes do consultório de puericultura…, começa no pré-natal, no estímulo à maternidade consciente e ativa. Começa no estímulo à paternidade também consciente, ativa, participativa. Na não hierarquização da relação entre um casal. No apoio à mulher gestante, e à mulher no pós-parto. Na palavra de incentivo do dia-a-dia, que com ele, cresce uma mãe confiante.

A Família também tem um papel importante para a amamentação, o apoio efetivo se dá principalmente através de ajuda, carinho, e não minar sua confiança, mesmo que tenham passado por situações difíceis em relação ao aleitamento materno. Mulher e bebê no pós-parto são como esponjas, absorvem tudo à sua volta uma vez que estão transbordando de sensibilidade…O que você quer que seja absorvido por elas?

Temos que pensar também sobre as questões emocionais do aleitamento. Esta disponibilidade exigida pela demanda intensa de um bebê é real, deve ser conversada, compartilhada, desmistificada. Pode ser muito fácil para muitas mulheres amamentar, para outras, pode despertar sensações e emoções desconhecidas, não queridas. Precisamos respeitar, que, mulheres podem não querer amamentar…., diversos são os motivos que podem fazer uma mãe não querer amamentar…inclusive que podem gerar dor ao fazê-lo…, e antes que nos venha à cabeça a emoção, pela identificação de desamparo com o bebê, respeitemos e acolhamos esta mulher, pois a amamentação é apenas um grande princípio de uma grande história, e “atirar uma pedra” é pior caminho para a construção do amor e do resgate de uma sociedade.

O aprendizado da falta de apoio infelizmente é um ciclo que pode ser reproduzido…mulheres que não receberam apoio muitas vezes são as que cobram de outras mulheres o êxito que gostariam de ter tido, o sucesso que julgam ser obrigatório. Este comportamento é reflexo de uma sociedade punitiva, ao invés de acolhedora. Precisamos mudar isso. Precisamos quebrar este ciclo de violência sobre a mulher, e sim construirmos espaços de compartilhamento sem julgamento, e sim construtivos.

Grandes movimentos estão surgindo em benefício e conquista da mulher sobre seu corpo, suas escolhas e também sobre sua maternidade.

Grupos de apoio presenciais e em rede sociais são extremamente importantes para que as mulheres possam ser ouvidas e se ouvirem. Grupos que valorizam as diferenças, que se respeitem e estejam abertos ao que é do outro. Grupos, Rodas de Mães. Grupos de Pós-parto. Cine-Materna. Dança-Materna. Grupo Acalanto, “Slingadas” entre  tantos que estão surgindo são um demonstrativo da valorização da maternidade prazeirosa. Não precisamos de grupos que reproduzam um sistema de saúde e social punitivo, que não valoriza a história de uma pessoa, de uma mulher, de uma mãe.

Precisamos de campanhas que valorizem a mulher antes mesmo da valorização da qualidade do aleitamento materno, que a valorize enquanto está sendo atendida, que valorize o cuidador que cuida desta mulher.

Sem incentivo e apoio, tudo fica mais difícil, e retroceder pode parecer um caminho menos assustador do que avançar.

Daniela Andretto