Amamentação Prolongada

 Começo este artigo com uma provocação: por que nossa sociedade preocupa-se tanto com a independência dos nossos “filhotes”?

Somos os únicos mamíferos que afastam nossos filhotes antes mesmo destes manifestarem qualquer sinal de desejo de separação.

Talvez porquê sejamos cada vez mais a fotografia de uma civilização industrial, que responde por metas, por produção, cujo tempo escapa pelas nossas mãos…. Vivemos em uma sociedade que passou a valorizar muito mais a técnica, do que a intuição, as orientações cartesianas, do que a percepção materna.

Recentemente, durante minha pesquisa ao escrever esta matéria, deparei-me com um artigo, cujo tema envolvia  argumentos e justificativas das mães para a manutenção da amamentação, após os doze meses de idade. Sem entrar no mérito do artigo, chamo a atenção das palavras usadas: “argumentos, justificativas”.

Meu estranhamento deveu-se à seguinte indagação: por quê uma mulher com seu bebê, ou filho (dependendo da idade em que ele se encontra), deva dar satisfações ou mesmo “obedecer” seu pediatra, ou mesmo psicólogo, sobre o tempo que ela deva amamentar?! Podemos sim recorrer â estes profissionais sobre nossas dúvidas e possíveis orientações, porém, à quem cabe esta decisão sobre o início do desmame, ou mesmo, sobre até quando tempo deve-se amamentar um filho?

Segundo Dr William Sears (The Baby Book), “A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”.

Estamos atentos às repercussões destas ações? Seguimos os prazos, tempos, sinais dos nossos bebês e de nós mesmas, ou seguimos os prazos da nossa sociedade? Como lidar com estas questões da contemporaneidade, do mundo capitalista, e ao mesmo tempo, ouvir nosso íntimo? Temos espaços para ambas as situações? Talvez seja por estas questões que muitas mulheres, que, voltadas para as questões da maternidade e do aprofundamento das relações com seus bebês, estejam reavaliando suas profissões, projetos de vida, e satisfação pessoal.

Mas a pergunta continua….E aí, quando é o melhor momento para interromper a amamentação prolongada? Até quando amamentar.?

A melhor época para o desmame é quando mãe e bebê (ou criança) estejam ambos aptos a enfrentar esta nova experiência de vida. É um processo que deve ser gradual, e de preferência não acompanhado com outra separação, por exemplo, volta ao trabalho da mãe e demame total do seio materno, ou demame do seio materno e separação de cama compartilhada.

A amamentação prolongada, se for prazeirosa e desejada pelo binômio, é indicada não só por promover troca íntima e de afeto entre mãe e bebê, como também é capaz de fornecer inúmeras vantagens para a saúde deste binômio:

No segundo ano de vida, 500ml de leite materno proporciona à criança:

95% do total de vitamina C necessário
45% do total de vitamina A necessária
38% do total de proteína necessária
31% de caloria do total necessária (UNICEF/Wellstart: Promoting Breastfeeding in Health Facilities: A short course for Administrators and Policy Makers; WHO/CDR 93.4) (fonte:  http://comunidadeams.wordpress.com/2012/06/20/beneficios-da-amamentacao-prolongada/)

Apesar de poucos estudos que relacionem aspectos emocionais da amamentação tardia x desmame precoce, encontram-se artigos que referem que crianças amamentadas  tem maiores índices de inteligência, menor risco de doenças como diabetes e hipertensão na idade adulta, e maiores chances de serem adultos mais seguros. Ao contrário do que se pensa, crianças expostas à um desmame abrupto e precoce, tornam-se mais inseguras e com isso, mais dependentes de seu cuidador.

Quando amamenta-se uma criança com desejo e motivação, desenvolve-se uma relação de prazer e troca muito intensa. A segurança promovida por esta troca fortalecerá na criança a percepção de que “o mundo é seguro e que por isso, aos poucos, posso me aventurar por ele….”

Daniela de Almeida Andretto


Psicóloga ,
Mestre pela Faculdade de Saúde Pública da USP – Departamento Materno Infantil
Especialista em Estudos e Intervenções com Famílias – Univ Lisboa/Portugal
Especialista em Psicologia Hospitalar – INCOR-USP
Capacitadora em Método Canguru (Formada pelo Min. da Saúde/BR)
Membro Ibfan-Brasil.